segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

10º Capítulo: "Eu e Tu"

 - “… I can’t sing a love song / Like the way it’s meant to be / Well I guess I’m not that good anymore / But babe that’s just me / And I will love you, baby, always / And I’ll be there, forever and a day, always / I’ll be there till the stars don’t shine / Till the heavens burst and the words don’t rhyme / I kwon when I die, you’ll be on my mind / And I love you, always …” – Cantava, desafinada.

 Estava a escurecer, as pequenas localidades ganhavam novas tonalidades à medida que as luzes de Natal acendiam. Presépios nos jardins, Árvores de Natal nas rotundas, estrelas e anjos pendurados nos candeeiros de rua.

 Finalmente cheguei. Entrei naquela que tinha sido a minha casa por 18 anos. Aquele ser pequenino correu, desajeitado, na minha direção de braços bem abertos. Peguei-o ao colo.

 - Nana. – Gritou o pequeno com um enorme sorriso nos lábios.

 - Meu pequerrucho, dá um beijinho e um abracinho à mana. – Assim o fez.

 Senti-me feliz. Embora tivéssemos 18 anos de diferença, e apesar de não poder estar com ele quando mais queria, queria fazer parte da sua vida, queria poder assistir ao seu crescimento.

 - Anda, anda! – Estava excitadíssimo.

 Mostrou-me a Árvore de Natal, decorada por ele, embora com ajuda dos nossos progenitores, e um desenho feito por ele. Duas pessoas estavam desenhadas, felizes, campos verdes, árvores altas, pássaros e um sol muito brilhante.

 - Quem são? – Perguntei a apontar para as pessoas.

 - Eu e tu. – Disse na sua vozinha de bebé.

 Uma lágrima formou-se. Os meus pais vieram ao nosso encontro.

 - Minha filha, que saudades! – Disse a minha mãe, enquanto os cumprimentava.

 - Vem mais magrinha. – Ri-me com a intervenção do meu pai.

 - O teu irmão ainda não parou desde que lhe disse vinhas.

 - É mesmo tonto este meu borrachinho… - Disse orgulhosa.

 O jantar era o meu prato favorito, a minha mãe esmerava-se sempre. Jantámos, foi uma hora com muita animação. Por vezes esquecia-me de como esta sensação era boa.

 Esperávamos pela sobremesa quando o meu telemóvel soou. Olhei para os meus pais como que a pedir desculpa pela interrupção. Deram-me permissão para ir atender a chamada.

 - Ruben. – Atendi com um sorriso.

 - Pequenina, já chegaste?

 - Já, esqueci-me de te avisar.

 - Não tem problema. Já mataste as saudades todas?

 - Nem perto. Uma semana não vai chegar para matar todas as saudades, só algumas…

 - Então aproveita bem, porque quem já está com saudades sou eu. – Já lhe imaginava um enorme sorriso de menino pequenino esculpido no rosto.

 - És tão mentiroso.

 - Nem sequer. – Fingiu-se ofendido.

 - Vá só um bocadinho…

 - Eu logo te digo… - Gargalhei com a insinuação.

 Vi o meu irmão aproximar-se devagar.

 - Vou ter de desligar, estava a jantar.

 - Então até amanhã.

 - Sim, até amanhã. Beijo.

 - Beijo pequenina.

 Desliguei. O sorriso que se formara ao atender a chamada ampliou-se.

 - Mas o que é que tu estás aí a fazer, seu bisbilhoteiro?

 Soltou um sorriso matreiro e iniciou uma corrida até à sala de jantar.Com esforço subiu para a sua cadeira. Em cima da mesa já estavam as sobremesas, desde o meu doce favorito até aos doces típicos da época.

 A conversa prolongava-se, embora que o Artur, o meu irmão, estivesse estranhamente calado. Olhei-o. Os seus olhos fixavam, tristes, a sua taça especial com o resto da sua gelatina favorita.

 - Meu amor, o que tens? – Perguntei-lhe virando a sua cara de modo a olhar para mim.

 - Nana, ainda gostas de mim? – Perguntou com um rasgo de preocupação na sua voz.

 - Claro que gosto. Muito! – Sorri-lhe.

 - Gostas mesmo?

 Os seus olhos começavam a inundar-se de pequenas lágrimas. Sentei-o no meu colo, virado para mim.

 - A mana gosta muito de ti! Diz lá o que se passa.

 - Se gostas muito de mim porque é que tens um namorado?

 Os meus pais olharam-se e eu olhei para eles. Naquele momento a casa ficou muda.

 - Meu amor, a mana não te nenhum namorado.

 - Mas ele ligou-te.

 - Achas que se a mana tivesse um namorado tu não sabias? Eras o primeiro a saber!

 - ´Tas a falar a verdade?

 - Claro que sim. Quem ligou foi só um amigo da escola, mais nada.

 - ‘Tá bem. – Acalmou-se.

 - Filho, vamos ver televisão? – Convidou o meu pai.

 - Sim. – Disse novamente feliz. Enquanto saíam da sala de jantar o meu olhar seguia-os.

 - Nana. – Chamou-me e voltou-se para mim. – Eu também gosto muito de ti.

 Sorri-lhe e saíram. Instantes depois a televisão da sala já se fazia ouvir. Começámos arrumar a mesa e a cozinha.

 - Amigos?

 - Desculpe?

 - Perguntei-te se são só amigos. – Porque é que as mães descobriam sempre tudo?

 - Sim, somos só amigos. – Destaquei a palavra ‘só’.

 Aquela mulher que eu tanto admirava sorriu-me.

 - Filha, já há algum tempo que não te vejo com nenhum rapaz. Na verdade, a última vez foi antes de saíres de casa.

 - Não me viu porque não tive mais nenhum.

 - Está bem, pronto. Mas se o teu irmão percebeu é porque é demasiado evidente.

 - É assim tão óbvio?

 - Para mim, que te conheço há 21 anos, é.

 - Sim, é só um amigo. - Baixei o olhar e sorri. - Especial.

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