quarta-feira, 6 de junho de 2012

43º Capítulo: Tempo de desistir (Parte II)























“Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.” (William Shakespeare)

 Num mundo de contrariedades, o meu mundo é que estava ao contrário. Embora que, na noite fria, fosse fácil sonhar.



***



  (Ruben)

 - Mano. – Chamava, na forma abreviada para palavra portuguesa “irmão”, com a sua pronúncia espanhola, o que me deu uma certa piada ao ouvir. Não conseguia compreender o que me acabara de dizer, aliás, era algo sem sentido algum. Claro, ele tinha de estar a brincar comigo, era algum tipo de partida, certo? Por que é que ele não se estava a rir? Não, nem sequer se estava a esforçar para o esconder. Não havia vontade de soltar a gargalhada que eu queria ouvir. Ele estava a falar a sério! – Ella no puede hablar contigo.

 - Não quer? – Tentei mudar o sentido da sua afirmação.

 - No puede. – Corrigiu. Como se houvesse alguma diferença… - Madalena no puede estar contigo, Ruben. Vosotros no podéis estar juntos, no más.

 - Claro que não. Ela está em casa dos pais, é óbvio que não podemos estar juntos até que ela volte. Mas, afinal, por que é que não quis falar comigo? Não entendo porque é que não atendeu as minhas chamadas… Já estava a dormir?

 - No creo que sea posible. – Cada palavra que pronunciava perdia-se no espaço existente entre nós. Não devido ao barulho que estava estabelecido na grande sala, era uma consequência do tom de voz utilizado. - Ruben, ella estaba llorando.

 - Estava llo quê? Llorando? Chorar? O quê? A Madalena estava a chorar? Por quê? – Um enorme rasgo de preocupação invadiu-me o coração e a mente. Não me parecia que se estivesse a referir ao chorar de tanto rir, portanto, alguma coisa se tinha passado. E eu, tinha de saber o que se passava. Retirei o telemóvel de um dos bolsos das calças e comecei a digitar o seu número. Num forte puxão, Javi arrancou-me o da mão.

 - Então? Eu preciso de falar com ela! – Ripostei sentindo o coração cada vez mais apertado.

 - No puedes.

 - Não posso, não posso. Ela estava a chorar e eu preciso de saber o que se passa!

 - Ruben, ¡eso es lo que estoy diciendo a diez minutos! Por favor, ¡escúchame! Madalena estaba llorando porque no puede estar contigo. Su padre no permite que vuestra relación continúe. – Gritava-me num tom de desespero.

 - O quê? O pai dela…? – Era uma brincadeira, tinha de ser! – Ah Javi, pensas que me enganas? Eu sei que estás a brincar! Bolas, quase que acreditei. – Dei meia volta, em direção à multidão, mas Javi agarrou-me o braço para que eu não pudesse dar nem mais um passo. Soltou um suspiro audível, percebi que não estava a brincar. Voltei à posição inicial e encarei-o. – Estás a falar a sério? – Confirmou com um aceno de cabeça. – Mas… mas ele nem me conhece!

 - Conoce y tu lo sabéis. Tu eres conocido en Portugal.

 - Sou conhecido pelo trabalho que tenho! – Ripostei.

 - ¡Esa es la razón! – Tive a sensação que o mundo me tica caído aos pés. Deveria ser algo semelhante ao que estava a sentir. Nada conseguia pensar até ao momento em que o meu coração acelerou mais um pouco, o interior da minha cabeça foi invadido por uma espécie de formigueiro e os meus membros, inferiores e superiores, tremiam que nem varas verdes. «Por quê, Madalena? Por quê? Por que me estás a fazer isto?» Eram perguntas para as quais não teria respostas, nem sabia se as queria. Assim que acordasse do transe em que tinha ficado, na frente de Javi, estaria tudo acabado! Tudo? Como tudo? E o que nós sentíamos, não importava? Ou melhor, o que eu sentia, pois da parte de Madalena já nada sabia. «Fraca!», gritava, em silêncio, repetidamente, gritava tão alto que era impossível os ouvidos não me doerem. Sentia o rosto molhado, os olhos estavam a ficar inchados e ardiam-me, os soluços cresciam dentro de um peito que não era o meu. Tudo isto se dava num corpo que não era o meu.

 Não precisava de ouvir mais nada. Precisava apenas de ouvir a mulher que amava a dizer que era tudo um pesadelo. Queria acordar e tê-la ao meu lado. Poder envolve-la nos meus braços enquanto dormia para depois, perante o início de um novo dia, ter, no caminho do meu olhar, o sorriso mais lindo que alguma vez vira em toda a vida. Queria poder ouvir, uma vez mais, e outra, e outra, todos os seus pedidos para o pequeno-almoço, que eu preparava sempre com a máxima atenção e dedicação, e poder disfrutar do beicinho de criança que ela fazia sempre que me tentava persuadir a levar-lhe o pequeno-almoço à cama. Para depois, quando ela completasse a sua higiene matinal, pudesse disfrutar do primeiro beijo do dia que se iniciara, pois de outra forma não o teria.

 Queira correr, queria sair dali, daquele ambiente de festa. Queira e consegui, pois sabia que Javi inventaria uma desculpa qualquer para quem procurasse por mim, mas isso não era importante para mim, não agora. Felizmente, não teria de me preocupar com isso neste momento, hoje o dia não tinha sido dedicado às habituais piadas e provocações nas quais entrava sempre, ou quase sempre, assim, era mais fácil passar despercebido. Entrei no interior do automóvel que me pertencia, limpei desajeitadamente as gordas lágrimas que teimavam em formar-se e, embora não me fosse permitido ir ao encontro da pessoa que guardava o meu coração, coloquei o pé no acelerador e fui contra o destino que nos unia.

 Afinal, há um tempo para acreditar, um tempo para viver e um tempo para desistir.



***



  (Madalena)


 Ali estava ele, sentado de frente para o rio Tejo, sobre a relva macia, apreciando a paisagem que se estendia à sua frente. Entre os dedos, pequenos pedaços de relva dançavam, ora para a frente, ora para trás. O pouco ruido que fazia ao pisar a relva, na sua direção, não me denunciara. Segui em frente. Ao seu lado, sem nada dizer, sentei-me ao seu lado, facto que Ruben decidira mudar. Deslocou-me, fiquei sentada entre as suas pernas. As minhas costas em contacto com o seu peito, os seus lábios soltavam pequenos beijos entre o pescoço e os ombros, que me faziam arrepios. O vibrar do meu corpo denunciava-me perante Ruben que, certamente, colocaria o seu sorriso rasgado que lhe iluminava o rosto, de forma desumana, que tantas vezes ficava a admirar, o rosto de alguém que era dono do meu coração, ator principal dos meus sonhos, pensamento quase constante. Os seus braços uniam-se em redor do meu corpo. Nestes momentos sentia-me uma menina, sentia-me novamente uma criança que encontrara o seu porto seguro nos braços fortes de alguém que tanto admirava. As calmas águas do rio eram como um espelho para o futuro.

 Ficámos assim por alguns momentos, até que… «Oh não! O que é que está a acontecer?», pensei. Dessa mesma água calma, grandes e densas nuvens brancas se formavam e obstruíam a nossa visão, expandiam-se cada vez com mais força, retirando-me os sentidos. Não conseguia sentir o bater do coração de Ruben, nem sequer a sua presença, apenas ficara o lugar onde a relva amachucada denunciava a presença de alguém, o sol deixava de brilhar com tanta intensidade, o céu rendera o seu azul para ser tomado por um cinzento-escuro, muito escuro. Os pássaros já não cantavam à beira do rio. «Uma tempestade», pensei novamente. Fora essa tempestade que mudara o rumo do mais certo. Uma tentativa desesperada de me conseguir levantar, uma mão pesada pousou nos meus ombros, o vento soprou furiosamente, vi-lhe o rosto. Os seus olhos furiosos, o seu rosto com uma tonalidade muito vermelha impediam-me com autoridade, de seguir o caminho que escolhera, de ir à luta. Um rosto familiar, alguém que eu guardava no meu coração como um herói, que me encorajava a seguir em frente e que agora impedia de avançar: o rosto do meu pai.

 Lisboa desaparecia debaixo dos meus pés, as extensas nuvens consumiam-me. Algo ali me parecia deslocado, parecia não, estava deslocado. Uma melodia fazia-se ouvir, longe, «Mas… Como poderá existir vida enquanto o mundo de transforma em escombros?» O som aproximava-se de mim, tentava focar-me mas a minha audição estava afetada pela tempestade. «A drop in the ocean/ A change in the weather/ I was praying/ That you and me/ Might end up together/ It’s like wishing for rain/ As I stand in the desert…» Conhecia a melodia de algum lado, mas de onde? A luminosidade descia significativamente embora aumentasse em outro plano, como se fosse possível existirem dois mundos paralelos. Voltei a sentir. O meu corpo encolhido abrigava a almofada, perto de mim uma luz piscava, a mesma melodia fazia-se ouvir com mais intensidade. Tudo o que sentia era confusão. Olhei em redor e tudo o que vi foram as formas do quarto que fora meu por 18 anos, formas apenas iluminadas pela luz do luar.

 Um sonho, tudo não passara de um sonho. Ruben nunca estivera comigo, continuávamos separados pelos mais de 100 km. Enquanto isso, percebi que a música que ouvia provinha do meu telemóvel, era deste que a luz piscava. Uma chamada. Atendi automaticamente, sem qualquer entusiasmo.

 - Sim? (Silêncio) Estou? - Do outro lado nada mais se ouvia para além do som da respiração humana. Sabia que alguém estava do outro lado, a ouvir minha voz, mas não permitia que ouvisse a sua. O desejo de que fosse Ruben, embora o único nome que aparecia no ecrã do telemóvel fosse ‘Desconhecido’, aumentava, queria escutar a sua voz, desejava ouvir um ‘Vai ficar tudo bem’, ou provavelmente não iria. Porém, poderia ser alguma chamada falsa ou um erro técnico. E se não fosse? Poderão chamar-lhe sexto sentido, o que quiserem, mas sentia que deveria continuar a falar para aquela voz muda. – Sim? – Insisti e o meu coração acelerou ao som da respiração. – Ruben? Ruben, és tu? – Esperei por uma resposta que não chegaria. – Ruben, se fores tu… Eu amo-te. Nunca te esqueças disso. – Por caminhos trilhados, lágrimas escorriam, novamente, pelo meu rosto, inundando-o e arrastando consigo a tristeza e o desespero que selavam o meu coração. Um pequeno soluço foi tudo o que ouvi antes de o som de chamada desligada ecoar no meu ouvido.

 Não sei quanto tempo permaneci a olhar para o ecrã do aparelho, tudo o que queria era ter a certeza de que era Ruben, queria ter a certeza de que ele não desistiria de mim. Estaria a ser egoísta? Provavelmente, afinal queria manter-me presa a Ruben. Pousei o telemóvel na cama, abracei a almofada e, embora tivesse a certeza de que não voltaria a adormecer tão cedo, esperei que o coração e a alma pesassem menos. Também sabia que não aconteceria. O amor pesa, pesa muito, por vezes até mais do que o nosso próprio mundo.




Desculpem por ficar tanto tempo sem postar, os exames estão à porta e preciso de me aplicar.
Espero que não tenham desistido da minha Fic.

Beijinhos,
Jéssica

quinta-feira, 17 de maio de 2012

42º Capítulo: Tempo de desistir (Parte I)





 Em dias, algo distantes, lera, num dos tantos livros que se acumulavam na sala de estar, cujas páginas já soltavam um aroma doce e, com o passar do tempo, se tornavam cada vez mais amarelas: “Namoro é quando não se tem certeza absoluta de nada, a cada dia um segredo é revelado, brotam informações novas de onde menos se espera. De manhã, um silêncio inquietante. À tarde, um mal-entendido. À noite, um torpedo reconciliador e uma declaração de amor. Namoro é teste, é amostra, é ensaio e, por isso, a dedicação é intensa, a sedução é ininterrupta, os minutos são contados, os meses são comemorados, a vontade de surpreender não cessa – e é a única relação que dá o devido espaço para a saudade, que é fermento e afrodisíaco. Depois de passar os dias vendo-se só de vez em quando, viajar para um fim de semana juntos vira o céu na Terra: nunca uma sexta-feira nasce tão aguardada, numa uma segunda-feira é enfrentada com tanta leveza”.




 A desilusão que tivera nessa manhã e o receio com que passara a encarar a dia seguinte, desde que o meu pai me fizera o ultimato, desligaram o meu corpo e a minha alma do mundo. Ao som da voz da Natureza, os pensamentos divagavam para muito longe, corriam ao encontro de um alguém que se encontrava a mais de 100 quilómetros de distância, embora ainda houvesse tentado contê-los.

 Sabia ter chegado o momento de fazer o exame de consciência, talvez descobrisse as razões que teriam levado meu pai a tomar tal decisão e a falta de força que eu tivera para não conseguir levá-lo a mudar de ideias. Porém, em vez da alma, examinei o coração. Como poderia deixar Ruben, se só o facto de pensar em fazê-lo me causava uma enorme e angustiante dor? Como poderia virar costas àqueles que tanto amava? Quaisquer das limitadas soluções sugeriam que perderia pessoas importantes, demasiado importantes para serem afastadas da minha vida, pois, certamente, chegariam alturas em que me iria arrepender da escolha feita, quer escolhesse a família ou o amor que me unia a Ruben. E, desta vez, a culpa nem tinha sido minha.

 A memória transportava-me, através do tempo, àqueles momentos em que o surpreendera com simples palavras, com simples olhares, que normalmente sabiam velar tão bem os pensamentos que me atormentavam a alma, embora fossem poucos os seres de coração latejante que fossem dotados o suficiente para quebrar o selo e chegar à parte incorporal mais profunda dentro do próprio corpo – a alma.

 Estendida sobre a flora, envolta na claridade de uma tarde primaveril, imaginava a expressão de felicidade estampada no rosto de Ruben quando, na próxima vez em que estivesse com ele, soltasse mais um sentido ‘amo-te’. Por momentos, imaginei-me, mais uma vez, nos seus braços. O que nunca me tinham dito era que o desejo e o êxito eram duas coisas diferentes e a experiência da vida ainda não me ensinara que a vitória nem sempre cabe aos mais arrojados.




 Onde horas da noite. Estava uma noite excessivamente fria, mas isso não era motivo para que a lua não brilhasse, no alto firmamento. E brilhava, com grande intensidade, acompanhada das estrelas que, um dia, há muitos anos atrás, foram o passaporte para o novo mundo. A luz prateada reflectia-se nas altas folhas verdes de cada árvore, nos rebentos verdejantes que cobriam todo o chão e, salvo nas grandes pedras que se encontravam ao longo do percurso da ribeira, a água brilhava ao refletir aquele magnifico corpo celestial como um espelho.

 Eram horas de regressar a casa, à casa que já não tinha como minha, ao reencontro de alguém que, neste momento, tinha, na minha mente, como uma profunda desilusão. Mas não me podia permitir pensar isto do meu pai, afinal, aquele senhor era a minha entidade paternal mais próxima, era a ele a pessoa a quem eu devia respeito. Mas será que ele me havia respeitado a mim? Não, esta não era uma questão para a qual eu quisesse uma resposta.

 Teria de regressar com Zeus até à quinta, teria de regressar a casa, teria de passar pelo quarto onde o meu irmão dormia sem ter coragem de entrar para o aconchegar, de o envolver nos meus braços ou de simplesmente vê-lo dormir, sem ter coragem de fazer uma escolha, teria de regressar àquele que, em tempos, fora o meu quarto e passar as próximas horas sozinha, numa luta constante com os olhos que teimavam em manter-se abertos, enquanto a minha vontade era cerrá-los para que pudesse sonhar que tudo teria sido sonho, para que, de manhã, ao acordar, percebesse que tudo não passara de um pesadelo.



***



 Aquele aparelho tecnológico, hoje indispensável, já contava com algumas chamadas não atendidas. Ruben. Ruben, era a pessoa a quem estava associada a palavra ‘Amor’ que aparecia no ecrã tátil. O que faria se ele me tornasse a ligar? Como lhe poderia dizer que tudo tinha terminado? Como poderia estragar a sua felicidade, pois, neste momento, certamente, estaria a festejar mais uma vitória com o plantel encarnado? Era uma cobarde.

 A água quente corria sobre o meu corpo gelado. Durante largos minutos, tentei relaxar os músculos mas o frio e o medo, que se haviam apoderado de mim, não o permitiram. Na verdade, em desespero, tentara prolongar o duche ao máximo, deixara-me ficar debaixo de água mesmo quando os procedimentos naturais já estavam realizados, a pele já mostrava os seus sinais, ficava encarquilhada com o alongar dos minutos, especialmente a dos dedos. Afinal, há quem diga que a água lava tudo. Infelizmente, nem tudo.

 «A drop in the ocean/ A change in the weather/ I was praying/ That you and me/ Might end up together/ It’s like wishing for rain/ As I stand in the desert…» - Uma luz brilhante, algures no centro da cama, fizera-se acompanhar pela melodia que se designava a anunciar a chegada de uma nova chamada. Já com a roupa com que iria dormir vestida, corri, embora a distância fosse apenas de dois passos, ao encontro do som que se fazia ouvir alto demais. Por momentos, desejei que fosse Ruben só para poder ouvir a sua voz uma última vez, no entanto, outra pessoa esperava, do outro lado, uma reação minha. Com o telemóvel perto do ouvido, atendi a chamada e continuei no silêncio que me acompanhava há largas horas.

 - Madalena? – Uma voz conhecida chamava por mim.

 - Sim? – Respondi com pouca clareza. Neste momento, o meu coração acelerou, a minha cabeça premiou-me com uma imensa dor, por debaixo das pálpebras formavam-se pequenas lágrimas que, segundos mais tarde, escorreriam grandes e gordas, deixando rasto no meu rosto cansado.

 - Chica, ¿qué pasa? Ruben está preocupado por ti, te ha llamado durante todo el día. – Repreendeu-me.

 - Eu sei, mas não tenho estado com o telemóvel. – Tentava controlar-me, era uma missão difícil, contudo, para ajudar, respirava fundo. Enchia, silenciosamente, os pulmões de ar, para depois, quando o expulsasse, todo o peito se envolvesse num agitar insuportável e aí, voltaria a repetir tudo novamente.

 - Espera un segundo, voy llamarlo.

 - Não! – Quase gritei, mas depressa selei os lábios. Numa atitude quase infantil, tive medo de que o meu pai viesse ao quarto procurando saber porque e com quem estaria eu a gritar. – Não vás, por favor! – Pedi, num tom de voz mais moderado.

 - ¿Por qué no?

 - Javi, eu não posso… eu… - Gaguejava enquanto as lágrimas começavam a percorrer o meu rosto descontroladamente.

 - Madalena, ¿estás bien? ¿Estás llorando?

 - Não, não estou bem. – Admiti. – O meu pai… ele… ele não quer… - Do outro lado do Tejo, Javi soltava palavras como “calma”, para que fosse capaz de construir uma frase com sentido. Era difícil, durante largas horas apenas havia pensado mas, ao verbalizar, tudo ficava muito mais complexo, mais doloroso. – Entre mim e o Ruben não pode existir nada, Javi, nada. - Consegui, por fim, dizer.

 - ¿Nada? Ruben va a…

 - Eu tive de escolher entre o Ruben e a minha família. Eu… eu sou fraca, cobarde. O meu pai ganhou, Javi. E eu não os consigo abandonar… E não quero…

 - ¿Y Ruben? ¿Dónde está en medio de todo? ¿Y tu padre, que tiene que ver con tu vida?

 - O meu pai é o meu pai, ele ameaçou-me com o meu irmão! O Ruben segue com a vida dele, como se nunca me tivesse conhecido. Um dia, ele encontrará alguém que o faça feliz, alguém que o possa fazer feliz.

 - Pero, ahora, quien o hace feliz eres tu. – Javi não precisava de falar muito comigo, na verdade, duas palavras bastavam para dizer tudo, pois este jogador espanhol sabia fazer as perguntas para as quais eu não tinha resposta nos momentos mais apropriados. - ¿Y cuando le dices?

 - Não digo… Eu não sou capaz.

 - Ruben me está mirando, tengo de ir. Pero, Madalena, el amor es todo. – Javi não precisou de dizer mais nada e eu não precisei de responder. Aos seus olhos, sabia que estava a cometer um erro, ou melhor, vários erros. Também sabia que me iria arrepender, quando, num futuro próximo, visse o meu mundo nos braços de outra pessoa, uma pessoa que não tivesse medo de arriscar, e aí teria de assistir ao desmoronar do meu coração, na primeira fila. Despedimo-nos em breves palavras, nada mais seria preciso dizer. Sabia que Ruben contava com bons amigos, um deles Javi, que certamente lhe contaria o que eu não era capaz.

 Era tempo de desistir.


terça-feira, 1 de maio de 2012

41º Capítulo: Mundos




 Uma leve e fresca brisa fazia-se sentir junto ao meu ouvido. Uma brisa suave e infantil que partia de uns lábios sorridentes em contraste com a maravilhosa pele de bebé, também ela suave, frágil. Sabia que os seus olhos estavam pousados em mim, ansiosos, conseguia senti-lo e, os seus pequenos braços, apoiados no sofá, faziam pressão sobre este, onde eu permanecera longas horas deitada depois do desejado regresso à casa situada na pequena localidade do interior alentejano, que me vira crescer. Uma doce gargalhada interrompeu o silêncio e, com ela a brisa aumentou de intensidade, quando senti algo pesado pousar nas minhas pernas, até então tapadas com velho cobertor que um dia pertencera à minha querida e amada avó, nos seus tempos de juventude.

 Deveria ter força para abrir os olhos mais cedo do que o meu corpo permitia, deveria olhar, finalmente, aquela pequena figura que, pacientemente, esperava que acordasse, também para aquela que me fora oferecida e que eu, tal como a primeira, amava incondicionalmente. Pequenos fios de cabelo impediam a visão completa, mas foi o bastante para relembrar o quão bom era voltar a casa, poder descobrir e admirar as diferenças proporcionadas pelo crescimento constante daquela criança que, só por existir me fazia feliz.

 Naoni, a grande e bonita cadela que me havia sido oferecida, percebeu que me queria levantar, mas não permitiu que a ignorasse nem que lhe desse menos atenção do que a que merecia. Artur, o meu único irmão, com apenas dois anos de idade, depressa se deixou domar pelos meus braços, e os seus, ainda pequeninos, limitavam os movimentos do meu pescoço, num abraço apertado. Eram estes pequenos seres que me completavam e, embora racional ou irracionalmente, eles sabiam disso.

 Do exterior da grande sala de estar, um inconfundível cheiro chegava até mim. Mesmo sem ver o que estava confeccionado arriscava-me a tentar adivinhar. Panquecas, chocolate quente, croissants, sumos naturais de frutas típicas da região. Sabia que tudo isto me esperava em cima da grande mesa da sala de jantar. Artur fez questão de me fazer companhia enquanto eu me deliciava com tudo o que a minha mãe havia preparado para mim. O pequenino estava eufórico, contava-me todas as suas novidades e segredos muito rapidamente, desde a menina nova que tinha entrado para a sua sala do infantário, que gostava de brincar na cozinha da casinha que nessa mesma sala tinham construído e que, só por saber o seu nome, já dizia ser seu namorado, até ao novo brinquedo que o pequeno João tinha recebido no seu mais recente aniversário.

 Através das janelas da sala de jantar, podia observar a minha progenitora. Dedicava-se à jardinagem. Com um enorme e lindo sorriso no rosto cantarolava, o contacto com natureza é algo único, e ela não lhe era indiferente. Acariciava, delicadamente, cada pétala. Para si, cada flor, cada folha, era única. Felizmente, o gosto, aliás, a paixão pela natureza era algo que tinha herdado dela. E do meu pai, o gosto pelos animais. De ambos, a adoração do campo. Se assim era, ainda me pergunto: como me tinha conseguido habituar à vida de uma grande cidade? É certo que, quando se vive toda a infância e adolescência no interior do país, viver na cidade é algo mais parecido com um sonho. Um sonho que nunca supera as altas expetativas…

 - Mãe. – Chamei ao sair da casa pela porta principal, que dava acesso ao jardim frontal.

 - Minha filha. – Deixou as respetivas ‘ferramentas’ próprias para a jardinagem e tomou as minhas mãos nas suas. Mostrei-lhe um sorriso. Na verdade, queria poder contar-lhe que estava com Ruben. Não sabia se era o momento certo e muito menos sabia se deveria dizer já que o Ruben era o mesmo Ruben, jogador de futebol, que todos conheciam.

 - Mãe, eu tenho algo para lhe dizer. A si e ao pai. – Olhei para todo o jardim, na esperança de o encontrar. – Ele está em casa?

 - Não, minha filha, o teu pai está na quinta, só deve voltar ao pôr-do-sol. Mas sabes que podes ir ter com ele. – Por momentos fiquei sem nada dizer. Sabia que tinha de anunciar o que se estava a passar, não só pelo Ruben ou por mim, mas sim pelo nós e, acima de tudo, pelos últimos acontecimentos que ainda estavam frescos na minha memória e no meu coração. Se não podia ser com os dois ao mesmo tempo, seria individualmente. – Minha querida, o que tens para nos contar? – Artur permanecia agarrado às minhas pernas e, para meu espanto, isso dava-me força para continuar.

 - Mãe, importa-se de me acompanhar? – Conduzi-a até ao banco de baloiço onde, durante a minha infância tantas vezes adormeci. Agora, com o meu pequeno irmão no colo, tudo se tornava mais fácil. – Mãe, peço desculpa por não ter contado antes, mas é algo recente. Eu tenho um namorado e… - Neste preciso momento, Artur saltou do meu colo e correu para dentro de casa. Como era possível que, com aquela pequena idade, compreendesse coisas como namorar? Sabia que ele tinha ficado triste mas, no fundo, ele sabia que, acima de tudo, eu o amava, esperava eu que ele soubesse…

 - Desculpa filha, eu tenho de ir ver do teu irmão. – Desculpou-se, sem me olhar, de modo a não o perder de vista. – Mas parabéns minha filha, tenho a certeza que ele é uma excelente pessoa. – Será que iria dizer o mesmo quando tivesse oportunidade de lhe dizer, especificamente, quem era, agora, o dono do meu coração?

 Optei por não os seguir, por mais pequeno que fosse, não tinha coragem de enfrentar o meu irmão agora. Odiava vê-lo chorar, nem que fosse por uma mera birra, na verdade, o sentimento era algo apropriado à velha e já gasta frase: “Parte-me o coração”.

 Subi até ao primeiro andar, ocupado, maioritariamente, pelos quartos. Se o meu pai estava na quinta, talvez me fizesse companhia num passeio a cavalo. Apanhei o cabelo numa larga trança e vesti a roupa que usava sempre que montava aqueles grandiosos animais.








 Apreciei e absorvi tudo o que a natureza me proporcionava durante a curta caminhada de casa até à quinta. Procurei pelo meu pai e lá estava ele. Escovava Zeus, o meu cavalo predileto, na verdade, o nome era o ideal para ele, visto que Zeus era um Deus grego - Rei do Olimpo e dos Deuses -, era mesmo isso que ele era, um rei quando comparado com os restantes cavalos que ali habitavam, era o maior de todos eles, negro como a escuridão. Aproximei-me de ambos.

 - Vai montá-lo? – Perguntei cumprimentando o meu progenitor.

 - Ia, mas já que estás aqui, não queres ser tu? Há tanto tempo que não andas com ele…

 - Claro que quero, pai. Mas, faça-me companhia. – Pedi. Aparelhámos os respetivos animais e estávamos prontos para o longo passeio que se adivinhava pelas planícies alentejanas.

 Era algo totalmente diferente do litoral, a agricultura antiga predominava, as máquinas ainda tinham rendido poucos homens, talvez fosse um dos fatores para que aqueles grandes campos de cultivo fossem tão maravilhosos. As grandes sombras proporcionadas pelas árvores eram apetecíveis, a água que corria nas ribeiras, corria livre, sem pressas e os pássaros cantarolavam, incansavelmente, uma melodia sem igual. Comandados pela nossa vontade, os cavalos andavam, agora, lentamente.

 - Pai, tenho uma coisa para lhe contar. – Rematei. Fixei o horizonte e continuei. – Eu conheci uma pessoa e…

 - Um namorado? – Interrompeu-me, perspicaz. Um sorriso cresceu-lhe nos lábios e, automaticamente, os meus imitaram o gesto.

 - Uh… Sim. – Envergonhada, com o calor nas faces a crescer e, por consequência, a seu vermelho a ficar mais intenso, admiti.

 - Diz-me que arranjaste um benfiquista! – Literalmente, queria poder responder-lhe. Era literalmente um benfiquista. A sua fixação e, acima de tudo, paixão, amor, pelo clube era algo que me divertia.

 - Sim, pai, é. Mas…

 - Finalmente, ganhaste juízo! – Interrompeu-me. – Quero conhecer o rapaz. Na próxima vez que aqui vieres, trá-lo cá. – Sorriu-me mais uma vez. – Mas vá, conta-me lá, como se chama, o que faz…?

 - Chama-se Ruben. – Respondi, sempre na esperança que o senhor associasse o nome à pessoa em questão.

 - Trabalha?

 - Sim.

 - Então faz o quê?

 - É jogador de futebol. – Respondi a medo. Por momentos as suas sobrancelhas uniram-se em sinal de desconfiança, para depois voltarem ao estado normal.

 - Joga em algum clube conhecido? Da terceira ou da segunda divisão?

 - Não, pai, joga na... joga na primeira liga. – Respondi muito a medo. Algo, na minha mente, me dizia para não continuar, mas as cartas estavam lançadas.

 - Na primeira…? Tens a certeza?

 - É o… Ruben…

 - Sim, filha, já sei que se chama Ruben, mas tem apelido?

 - Amorim. – Sussurrei. Várias cores ocuparam o rosto do meu pai. Esperava, ansiosamente, uma resposta, uma atitude, que tardava em chegar.

 - O Ruben… Amorim… do… Benfica? – Gaguejava mas a sua voz, a cada palavra pronunciada, subia vários tons. Limitei-me apenas a mover a cabeça para cima e depois para baixo, uma única vez. – Não, não pode ser!

 - O que se passa?

 - O que se passa, Madalena? O que se passa? Tu endoideceste? Ele é… ele é um jogador de futebol! Ele não pertence ao teu mundo! – Gritava-me.

 - E qual é o meu mundo?

 - Tu não foste criada para te dares com essa gente! – Argumentava furioso.

 - Pai, ele é uma pessoa normal. É simpático, divertido, gosta de mim…

 - Gosta de ti? Gosta de ti, Madalena? – Abanava a cabeça para a direita e para a esquerda, repetidamente. – Não! Eu não te dou o meu consentimento para estares com essas pessoas!

 - Pai, eu não preciso do seu consentimento. – Nos meus olhos, pequenas lágrimas se formavam cada vez com maior rapidez. Também eu lhe gritei para me fazer ouvir.

 - Mas que falta de educação é essa? É isso que aprendes com esse…?

 - Esse tem nome! Chama-se Ruben e eu amo-o! – Chorava.

 - Amas? Sabes lá o que é isso! Não passas de uma miúda! – Insultou-me. – Imagino o que ele não se divertiu já às tuas custas!

 - Mas o que é que o pai pensa que está a fazer?

 - Vais ter de escolher! Ou ele ou nós! – Nunca esperei que o meu pai fosse capaz de me meter ‘entre a espada e a parede’. Sentia algo semelhante à desilusão. Sem uma explicação.

 - Desculpe?

 - Escolhe! Ou o escolhes a ele ou nos escolhes a nós. Se o escolheres nunca mais te quero ver. Nunca mais tens permissão para ver o teu irmão! Se assim for ele há-de esquecer-se de ti.

 - Pai? – Sussurrei. – Pai! – Tentava gritar nos momentos em que o choro compulsivo me dava tréguas por segundos. A figura que eu tomava como a pessoa mais justa do mundo, içara as rédeas do cavalo e, a galope, percorreu, muito rapidamente, o caminho que havíamos trilhado.

sábado, 14 de abril de 2012

40º Capítulo: História





 Há histórias que não passam de isso mesmo, histórias. Mas, antes que sejam dadas como reais, à que comprovar todos os seus factos, todos os seus acontecimentos. E é este ponto que faz com que as mais variadas histórias, não passem de meras… histórias. Embora que, por vezes, a realidade seja mascarada, assim, tudo o que não é, será tomado como verdadeiro. Será este um dos erros mais antigos da humanidade.


 Todo o meu corpo estava coberto de uma espécie de formigueiro e, também algo dorido, devido à constante posição em que me encontrava há demasiado tempo. Não sei ao certo quantas horas tinha dormido nem há quantas estava acordada, mas as primeiras teriam sido, certamente poucas, pois o cansaço ainda se apoderava de mim. Lá fora, o sol ainda estava escondido por detrás dos grandes prédios que preenchiam toda a capital portuguesa. Não faltava muito tempo para o azul-escuro do céu dar lugar à junção de cores características do amanhecer lisboeta e primaveril. Esta seria, certamente, uma das poucas e raras vezes que ficara grata por Ruben ter cedido ao meu pedido para que não dormisse em minha casa esta noite, na verdade, com todos os suspiros pesados que soltava, era impossível dormir.

 Ultimamente não me sentia eu. Talvez o velho mito de as pessoas mudarem quando se envolvem numa relação, seja verdade. Embora o objetivo seja adaptarem-se ao outro e não mudar nem tentar mudar. Sentia falta de me divertir, ser aquela pessoa extrovertida que aprendera a ser e que, acima de tudo, gostava de ser. Dei por mim a pensar que não pensava em nada. Normalmente, eu não pensava antes de cada ação, nem no futuro ou algo do género, e agora andava a fazê-lo demasiado.



***



 “Devido à linhagem mielóide, onde o recetor é o linfócito T e o recetor o linfócito B, o genoma do vírus Epstein Barr, ou EBV, é detetado em muitos casos, juntamente com uma variedade de anormalidades cromossómicas.” – Recitava o professor os seus apontamentos nitidamente decorados, em frente à sua enorme plateia. – Dúvidas? Não? Ótimo. – O seu tom monocórdico e a sua postura na frente não captavam a nossa atenção, de modo que, as dúvidas eram muitas.

 Todos os meus colegas, presentes na enorme sala, começavam a sair lentamente, imagino que durante aquelas longas horas tenham adormecido. Se a aula tivesse na sua duração mais cinco minutos era, certamente, isso que teria acontecido comigo.

 - Ontem já não te vimos depois do jogo… - Acusou aproximando-se da minha secretária. – Como estão as coisas no paraíso?

 - Agora estão bem… É, acho que sim.

 - Mas…?

 - Maria, tudo começou porque tu contaste algo a meu respeito ao Ruben, ele começou a imaginar coisas e ficou com ciúmes.

 - Não, eu não contei nada de ti. – Não contou? Como não contou? Agora era eu que não estava a perceber nada.

 - Não? Nada mesmo? Nem mesmo algo que envolvesse o Bernardo?

 - Uh… Eu não queria causar nada…

 - Por que é que foste contar o que quer que fosse sem me informares primeiro? Sabes perfeitamente que nunca existiu uma história entre mim e o Bernardo. – O rosto de Maria contraiu-se, olhei para sala, agora vazia, apenas para escapar, por segundos, ao seu olhar inexpressivo.

 - Não existiu? Então porque é que ele anda atrás de ti? Madalena, tu conheces o Bernardo tão bem quanto eu. Ele não corria atrás de ti se tu nunca lhe tivesses dado nada!

 - Nunca aconteceu nada!

 - Nem um beijo? – O seu tom era extremamente acusador.

 - Nada, Maria, nada! E tu sabes disso. O que é que o Ruben tem a ver com tudo o que não aconteceu?

 - Não sei. Eu sempre te apoiei com o Ruben, até compreendo que agora passes menos tempo connosco porque agora também tens os amigos do Ruben. Mas parece que tudo isto não te impede de… - Calou-se de repente, suspirou pesadamente e, aparentemente, não conseguiu continuar.

 - De? – Insisti.

 - Por quê o Bernardo? Por quê? O Ruben não é o suficiente? Também queres o Bernardo? – Maria chorava compulsivamente. Contornei a mesa que nos separava e abracei-a. Ao início Maria não correspondeu nem rejeitou este gesto amigável, depois acabou por me afastar, determinando, consequentemente, uma distância considerável entre nós.

 - Não sei onde foste buscar essa ideia. Eu só não quero é ter mais discussões com o Ruben.

 - Madalena, não tentes vender essa história. Não a mim.

 - Eu não estou a vender nada!

 - Então porque é que não deixas o Bernardo em paz?

 - Mas… Tu nunca gostaste do Bernardo… Qual o motivo disto?

 - O problema é que sempre te apoiei, sempre estive lá para ti. E tu?

 - Maria…

 - Devias saber que eu sempre gostei do Bernardo, Madalena! Sempre! E não suporto vê-lo andar sempre atrás de ti!

 - Por que é que nunca me contaste?

 - Era suposto tu perceberes! Mas não, preferes fazer com que ele seja sempre o mau da fita.

 - Eu não acredito no que estou a ouvir. – Sussurrei magoada.

 - Acredita, porque isto não é nem metade do que te tenho para dizer!

 - Como querias que eu adivinhasse? – Tive a sensação que o rosto de Maria adquiria rapidamente tons de vermelho. – Talvez não seja tão boa como tu a descodificar as pessoas, talvez eu não seja tão boa amiga como tu… - Para minha surpresa Maria não respondeu. Olhou-me de um modo estranho e, talvez, indecifrável. Com esforço, eu tentava esconder as pequenas lágrimas que se formavam. Era demasiado orgulhosa para permitir que alguém, quem quer que fosse, me visse a chorar, então teria de sair dali. – Desculpa-me por… qualquer coisa. – Não sabia ao certo porque o estaria a pedir, na verdade, ultimamente andava a fazer demasiados pedidos de desculpa. Instintivamente, passei-lhe a mão pelo braço ao passar por ela, embora não tenha reagido ao toque, mantendo-se imóvel.

 Se o dia ainda ia a meio na cidade lisboeta, para mim já estava perto de terminar. Saí do edifício o mais rapidamente possível, movendo-me com dificuldade por entre o fluxo humano, que aumentava.

 Por vezes, há planos que precisam de ser adiados, outros têm de ser realizados antes da data prevista. E, neste momento, só precisava de… Fugir. Para mim, a melhor arma.

 Corri ao encontro do meu carro, ansiosa por sentir o seu conforto. Foi complicado encontra-lo pois, o vasto parque lateral do edifício universitário estava lotado de automóveis. Percorri cada fila atentamente. E, por vezes, encontramos algo que não procuramos no momento. Ainda tinha algumas filas para percorrer, mas não sem…

 - Queres fazer-me o favor de sair da minha vida de uma vez por todas? – Avistei Bernardo a poucos metros de mim.

 - Ficas tão bonita quando estás irritada. – O sorriso que se formou no seu rosto foi o suficiente para que me sentisse cada vez mais irritada com ele.

 - Cala-te. Cala-te! Só… Sai da minha vida! Só me tens arranjado problemas.



***



 Se há planos que precisam de ser antecipados, este era, certamente, um deles. A princípio, planeara ir à pequena localidade do interior alentejano, visitar os meus pais e irmão, dentro de dois dias, logo após a deslocação de Ruben com a equipa encarnada para o encontro desportivo. No entanto, sem aulas práticas previstas, às quais não podíamos faltar, era-me possível viajar neste momento para a minha terra natal.

 Em casa demorei menos de uma hora. Coloquei algumas roupas numa mala de viagem, esperava que fosse o suficiente para este fim de semana antecipado, reuni todos os produtos de higiene necessários, preparei, na cozinha, algo rápido para levar para a longa viagem que me esperava e, finalmente, estava pronta para deixar, mais uma vez, embora que por um curto período de tempo, a capital. Era sempre com um enorme prazer que trocava os altos prédios pelos campos cultivados, a multidão agitada pela calma vida do interior.

 Com a cidade nas minhas costas, atravessava o rio ao som das minhas músicas prediletas. Ao longe, o Cristo Rei parecia abraçá-la, envolvendo também o manto de águas lusitanas que, uns metros abaixo, corria livremente para se juntar ao vasto oceano.

 O novo toque de chamada do meu telemóvel misturou-se numa estranha melodia que envolvia o interior do meu automóvel. Liguei-o rápida e atrapalhadamente ao microfone incorporado.

 - Olá. – Saudei com um sorriso a formar-se nos meus lábios.

 - Olá amor. Onde estás? Estou à porta do teu prédio…

 - Oh, eu não estou em Lisboa. Na verdade, estou a caminho de casa.

 - Se não demorares a chegar eu posso esperar aqui por ti.

 - Não Ruben, eu vou para o Alentejo.

 - Agora? Mas por quê? Não me avisaste.

 - Eu não sabia que ia.

 - Volta rápido. – Pediu-me.

 - Ruben, eu... Vou contar aos meus pais que estou contigo.

 - Vais? Mas tu disseste…

 - Há demasiadas coisas na minha vida que não deveriam estar. Não era suposto, Ruben.





Antes de mais, peço-vos desculpa pelo tempo que demorei a postar o capítulo,
mas estive em viagem de finalistas e o capítulo acabou por ficar a meio.
Agradeço também o crescente número de comentários que têm feito,
é muito gratificante e transmitem-me força para continuar com a história.
Obrigada :)

Beijinhos,
Jéssica